Jornal RelevO investiga possível rebranding do banco central americanoE se nos tornarmos mais um curralzinho deles?
Nesta newsletter, resgatamos textos publicados no Jornal RelevO e já devidamente esquecidos. Dessa vez, trazemos algo mais recente: as centrais da edição de maio de 2026. Lembrando que produzimos um curta-metragem e gravamos um DVD (pirata). Se quiser saber mais, leia nosso relato! Sua compra nos ajuda muito, demais, completamente – nem que esse item obsoleto apenas descanse na sua estante. Ah, e vem com link pirata. Afinal, quem tem leitor de DVD? EXCLUSIVOJornal RelevO investiga possível rebranding do banco central americano
Jornal RelevO: centrais de maio de 2026. Diagramação: Bolívar Escobar.
I.Pobre come dólar? Não sabemos: o RelevO evita um e é evitado por outro. Mas algo mudou na energia do planeta na segunda quinzena de abril. Uma espécie de feng shui cósmico. Os Estados Unidos, esse poço cafona de atrocidades, estavam mais… amigáveis. Ao menos segundo nossas fontes — e logo tratamos disso. Seu banco central, o Fed (Federal Reserve), supostamente estava de cara nova. Um novo plano? Um rebranding? O Fed – alegam nossas fontes – não quer mais ser apenas uma instituição chata que disserta sobre juros e financia qualquer desumanidade cometida pela ‘Murica em nome dos Illuminati ou de qualquer outro agrupamento étnico-religioso que preferimos não especificar para não sermos encontrados em condição de suicídio com oito tiros nas costas. O Fed, enfim, não seria mais o personagem principal para garantir emprego a astrólogos com gráficos, também conhecidos como macroeconomistas. O Fed era seria o Fred. Seu amigo Fred. Your buddy. “You can call me Freddy”. A ideia consiste em melhorar a imagem do país do hot dog no globo. Um rebranding capaz de afetar toda a política internacional. “Bro, vamos nos divertir!” foi a mensagem vazada do órgão atribuída ao secretário Brian Ombrelone, consagrado no Vale do Silício por ter sido CEO da Guard, empresa que fornece “gadgets de inteligência para contextos múltiplos (mas 99% militares) controlados remotamente”, com seus principais clientes em Israel. Mas como chegamos a essa ideia estapafúrdia, no Fed e em Ombrelone? Como sempre, com investigação séria. E alguns entorpecentes. Misturados com neurose, paranoia e internet. A combinação perfeita. II.É aí que entra Caio Barone, apelidado – não pelo RelevO, jamais – de Cracko Barcellos. Cracko (“me chama de Caio, por favor”), como é unânime e implacavelmente conhecido (“é sério, meu nome é Caio, pessoal”), envergou para o Jornalismo investigativo com o seu canal Fatos na Lata, em que explana com notável desenvoltura (ao menos para alguém com “pedras no caminho”, se o leitor nos acompanha) absolutamente qualquer assunto. Assim como seus cigarros, Cracko não tem filtro. Apesar da falta de diploma, do vício em apostas em campeonatos exóticos e das crises agudas de delirium tremens, Cracko chamou atenção de jovens que utilizam ferramentas bruxescas como Twitch e Discord e que permanecem incompreensíveis para nós, velhos decrépitos em contagem regressiva e franca decadência. Curiosamente, seu interesse pela política americana começou com o ICE (Immigration and Customs Enforcement). Cracko achou que se tratasse de um rótulo da Smirnoff e, precisando de um golinho, foi conferir. Acontece que Cracko não é apenas um degenerado com acesso ilimitado à internet. Ele habita uma zona cinzenta (e delicada) entre a inteligência e a perseguição, a visão única e a estupidez bruta. Sua mente é surpreendentemente complexa, um savant capaz de reconhecer padrões invisíveis e não perceber a ingestão do próprio cabelo. Cracko (“por favor, gente, é Caio”) é uma miríade de vidas não vividas, estradas potenciais que se cruzam e se anulam incessantemente. Cracko podia ter sido Caio (“mas eu sou Caio, poxa”), e não Cracko. O mesmo Cracko capaz de ser vilão e herói simultaneamente – um herói que não usa capa, mas usa… crack. E Cracko jurou ter interceptado mensagens do governo americano. “Para ser sincero, eu basicamente fucei aquela rede obscura em que O PRESIDENTE DELES ESCREVE ASSIM QUANDO TEM ATAQUES DE LOUCURA TODA NOITE E O MUNDO INTEIRO SOFRE AS CONSEQUÊNCIAS”, revela, humildemente. “A segurança cibernética é bem fraca, e alguns membros do alto escalão contam qualquer coisa quando você usa avatar de mulher peituda segurando uma AR-15“. Ninguém acreditou em Cracko — apenas seus fãs mais fiéis, apelidados de Pedrinhas. Por valor narrativo, o RelevO escolheu acreditar. E bancar sua investigação. III.Cracko precisava de auxílio, e para tanto recorreu a seu Sancho Pança. Um cowboy, ou melhor, vaqueiro hacker digno de literatura cyberpunk noventista cuja materialização só é possível na fractal dissolução das tribos contemporâneas. Alberto Alvarenga (“cada um tem o A. A. que merece”), 26, conhecido apenas como Beto Carreira (“sim”), tornou-se um escudeiro, conduzindo a parte técnica da investigação. Em mensagem criptografada (ou “crackografada”, como tentamos emplacar, obtendo nenhuma risada de nenhum jovem, e portanto culpamos apenas a Twitch), a dupla descobriu o suposto projeto para o banco central americano. O plano, intitulado The American Friend (ou Der amerikanische Freund 1977 para o cinéfilo pedante), promete uma série de medidas visando à maior lavagem de imagem desde que o Império do Japão saiu de “vamos arregaçar toda a Ásia e depois o mundo” para “KAWAIIII *-*”. Com isso em mente, o doravante Fred terá carta branca para atuar como uma verdadeira caravela de soft power, interferindo em produtos de exportação como NBA, NFL e competições de ingestão infinita de cachorro-quente. Não será um banco central, e sim uma central. O centro de tudo. As pistas eram cada vez mais quentes. Cracko & Carreira coletavam informações preciosas apenas gerando fotos inacreditavelmente criativas de fuzis reais com (ou em) mulheres fictícias. Suas fontes também eram quentes. Tão quentes quanto a lata que quica de madrugada na Rua Riachuelo, no Centro de Curitiba. Subitamente, o fogo se apaga e o que se vê são humanóides em condição deplorável prontos para partir de um não lugar para outro. Mas Cracko & Carreira se distraíram. Algo aconteceu. De um dia para o outro, tornaram-se incomunicáveis. Não o incomunicáveis lúdico, acolhedor, “tô quase tendo uma overdose” a que estávamos acostumados, e sim ausentes. Ausentes até da… internet, inclusive rejeitando entrevistas para o podcast matinal da influencer Ana Maria Brisa. Para o Louro Brisão, fantoche do programa, autointitulado “parça” da dupla, alguma coisa fora do usual – do usual deles – teria acontecido. Tentamos acioná-los, isto é, presencialmente. Foi aí que nos ocorreu que não fazíamos ideia de onde ambos moravam. Como bons investigadores, fizemos o que estava ao nosso alcance: vestimos trench coats, fumamos cigarros e ouvimos trilhas sonoras melancólicas de jazz. Até que recebemos uma resposta. Por escrito, pelos Correios. Não fazíamos ideia de que eles dominavam a letra cursiva. A bem da verdade, tomando como base aquele garrancho que faria uma avó do editor esbravejar indignada, podemos argumentar que ainda não a dominam (isto é, a escrita, não a avó do editor, notavelmente indomável, duas vezes presa por desacato em manifestações favoráveis ao governo Collor, porque “confiscar a poupança foi a melhor coisa que aconteceu pr’aquele bosta putanheiro do seu avô tomar jeito”). Ah, sim, a resposta. Depois de dias de silêncio absoluto, uma carta. Um papel-toalha em que se lia “Pivotamos” e um link para uma reunião uma hora mais tarde — o que nos incomodou um pouco e nos fez perder prestígio, uma vez que eles sequer consideraram a possibilidade de o RelevO ter outras obrigações ou prioridades. Mas, enfim, realmente não tínhamos e logo abrimos nossa tela. Cracko & Carreira estavam lá, estranhamente limpos e normais, cada qual abraçado a uma jovem morena. Elas atendiam por Estela e Vivian, e “Tela”, simpaticíssima, falou em nome de Cracko que seu companheiro se encontrava em um processo de limpeza “mental, espiritual e digital” (guiado por ela) e que não enfrentaria mais os demônios de sua paranoia por meio de “investigações delirantes e perigosas” na internet. Ao contrário de seus capuzes sórdidos e fétidos, Cracko vestia uma polo com calça cáqui, e tudo que Carreira fazia era concordar com o rosto, no máximo complementando com um “pode crer”. A conversa foi breve. Quando Cracko & Carreira finalmente começaram a falar, apenas nos contaram seu novo projeto: um game indie. “Conseguimos um budget fantástico com um investidor externo, estamos muito felizes”, ele relatou, o olhar mais vazio em relação a seu alterego cracudo, como alguém afogado numa piscina de LinkedIn. O jogo, School Shooter Simulator, ou 3S, é um simulador poderoso que permite viver a emoção de um evento canônico americano a partir da visão do atirador. Estranhamos, mas, enfim, o que podíamos fazer? Sequer sabemos o que faz um banco central. Nossa conversa morreu ali, assim como toda a investigação. Nosso furo de reportagem de magnitude mundial não veio, portanto não havia motivos para continuar: concluímos que a verdadeira dificuldade do RelevO consiste em escapar das latas antigas. E que o verdadeiro crack são as pedras que evitamos pelo caminho. Algo assim. Para celebrar (ou lamentar — há mesmo diferença depois das três da manhã?), cheiramos rapé.
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terça-feira, 20 de outubro de 2026
Jornal RelevO investiga possível rebranding do banco central americano
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