Pequena teoria sobre jornais, futebol e logísticaRelevO Copa do Mundo (a próxima); FIFA; Correios; efeito-rebote.
Olá, assinante e colaborador(a) do RelevO. Bem-vindo à circular de julho do Jornal, depois de pularmos a circular de junho por motivos de Copa do Mundo – apesar de não sermos convocados, (portanto) tampouco cairmos nas oitavas. Começamos a montar a edição de agosto, que deve ir para a gráfica no dia 25, se tudo der certo. Hoje, trazemos três recados, que rebobinam o passo recente e projetam a tela IMAX 70 mm do futuro. 1.O RelevO está na FLIP! Bem, não na programação oficial-oficial da Festa Literária Internacional de Paraty, até porque os curadores sabem o que fazem, e sim na programação das casas parceiras. No caso, o SESC, que nos chamou por conta & risco e só descobrirá na hora se isso valeu a pena. Na próxima sexta-feira (24), às 14h, no SESC Santa Rita, eu mesmo – Daniel Zanella, editor e fundador do RelevO – e a escritora e artista visual Thainá Carvalho debateremos o papel de jornais e revistas literárias na circulação da literatura e formação de leitores. A conversa, com mediação de Priscila Branco, escritora, editora e atual ombudsman do RelevO, abordará as transformações no campo editorial, transitando do impresso ao digital. Também discutiremos as novas formas de edição, crítica e divulgação, além de destacar a importância de espaços independentes e híbridos para a experimentação estética, a criação literária e o diálogo direto com o público. Tem tudo para dar certo, sobretudo pela presença da Thainá e da Priscila na mesa. Além da presença do editor com voz fina e calveludo, distribuiremos as edições de julho e da Copa do Mundo pelas pousadas, estandes e espaços vinculados à FLIP durante os quatro dias de evento. Também estamos aproveitando para ampliar a nossa rede de distribuição em pontos culturais da região. Por exemplo, a partir de agosto, a Terruá Café, localizada no km 53,5 da Rodovia Cunha-Paraty, passará a receber o RelevO. O local é espetacular, para dizer o mínimo. 2.Por falar em Copa do Mundo, que chegou ao fim com a derrota da Argentina em óleo sobre tela de cenas lamentáveis (por 120 minutos), o RelevO também encerrará na FLIP a sua jornada da Copa, sem divididas e expulsões fora do tempo regulamentar (diferentemente de outros anos...). Nossa edição especial teve 48 páginas, 6 mil exemplares de tiragem, lançamento em Curitiba e distribuição internacional em uma cobertura que procurou olhar para o futebol para além das quatro linhas. Mas quem conhece o RelevO sabe que a Copa nunca termina de verdade. Ela apenas muda de endereço. Desde já, começamos a pensar na Copa do Mundo Feminina de 2027, que será realizada no Brasil. Ainda não sabemos se a próxima edição especial nascerá por meio de um financiamento coletivo ou se seguirá o tradicional método “na unha”, como aconteceu com a edição da Copa de 2026, com captação individual de patrocinadores. Será uma oportunidade única de acompanhar um dos maiores eventos esportivos do planeta a partir da literatura, do Jornalismo e da cultura, dando espaço a vozes que costumam ficar fora da cobertura esportiva tradicional. Imaginamos mais uma aventura editorial que mescle a participação das 32 seleções da Copa feminina e o clima das oito sedes que receberão a Copa no Brasil, de Salvador a Porto Alegre. Para o RelevO, isso abre uma possibilidade interessante: como as sedes estão espalhadas por quatro regiões do país – a FIFA deixou a Região Norte de fora por “questões logísticas” –, uma edição especial poderia pensar a Copa não apenas como um evento esportivo, mas como um percurso pelo Brasil contemporâneo a partir da escrita feita por mulheres. Vamos vendo, vamos vendo. Até lá, seguimos fazendo o que sempre fizemos: um jornal por vez. 3.E quem diria que fazer duas edições no intervalo de um mês não seria financeiramente viável? Pois bem: o jornal especial da Copa se pagou em quase tudo. Impressão, produção, distribuição, decisões tomadas na base da teimosia e parte considerável da sanidade coletiva. Quase tudo. Faltam os Correios. Empolgados com a dimensão da edição, resolvemos ampliar a circulação e enviar exemplares para embaixadas, consulados, instituições culturais, parceiros, jornalistas, colaboradores e pessoas que talvez nunca tivessem ouvido falar do RelevO, mas que, por algum motivo, precisavam receber um jornal literário brasileiro de 48 páginas sobre futebol e literatura. A ideia era bonita (e continua sendo!). O problema é que a ideia bonita também foi pesada (no caso, literalmente, já que cada edição tem o volume de duas edições mensais). A edição da Copa teve tiragem de 6 mil exemplares e nasceu com a ambição de circular além dos pontos habituais do jornal. Queríamos que ela chegasse a leitores improváveis, atravessasse fronteiras, aparecesse em bibliotecas, livrarias, centros culturais e representações diplomáticas. Queríamos que o jornal tivesse, à sua maneira, uma trajetória parecida com a própria Copa: muita gente envolvida, vários países, logística complexa e despesas que ninguém consegue explicar direito depois. Conseguimos fazer quase tudo isso. Só não conseguimos convencer os Correios de que eles faziam parte de um projeto cultural histórico e, portanto, deveriam ignorar a tabela de preços. Aí estamos, no presente histórico, levantando orçamento para custear a materialização dos sonhos. Ou seja, assim como a FIFA, lidamos com problemas logísticos. Mas com menos bandidagem e submissão a certas figuras. Ao mesmo tempo, existe um fenômeno curioso na vida de qualquer publicação independente: quanto mais convocamos, mobilizamos, escrevemos, insistimos, divulgamos e perturbamos amorosamente a nossa comunidade, maior é a chance de produzirmos um efeito-rebote. Depois de uma campanha mais intensa, o mês seguinte costuma vir acompanhado de uma redução nas assinaturas e nas renovações. E o mês seguinte, lamentavelmente, é agora. É como se o leitor pensasse: “Já ajudei o RelevO recentemente. Certamente eles estão bem”. Levantamos a taça e depois derretemos para revenda por um preço muito baixo. O RelevO funciona por meio de uma delicada engenharia financeira baseada em assinaturas, apoios, anúncios, parcerias, vendas ocasionais, improviso e uma fé excessiva na permanência do papel. Quando uma edição especial acontece, essa engenharia fica ainda mais delicada. O dinheiro entra com uma missão específica e sai com outras quinze. Uma parte imprime o jornal. Outra distribui. Outra paga fornecedores e colaboradores. Outra tenta cobrir despesas que surgiram porque decidimos, como sempre, fazer um pouco mais do que seria prudente. Não nos arrependemos da edição da Copa. De forma alguma. Foi uma das experiências mais ambiciosas da história do RelevO e provou que um jornal literário independente pode tratar do futebol com profundidade, humor, memória e liberdade editorial. Provou também que existe público para esse tipo de projeto. Portanto, fazemos novamente aquele velho, constrangedor, desgastado e absolutamente necessário apelo com vistas ao coração e, se possível, ao cartão de crédito da nossa comunidade: assine o RelevO. Renove a assinatura. Presenteie alguém. Convença um amigo. Indique para uma biblioteca. Siga acreditando que enviar jornais para embaixadas foi uma decisão editorial ousada e não apenas uma forma internacionalmente sofisticada de perder dinheiro. A Copa acabou; os campeões já comemoraram; os derrotados já encontraram culpados e o mundo seguiu em frente. Talvez seja essa a nossa pequena teoria sobre jornais, futebol e logística: o jornal precisa circular, a bola precisa rolar e alguma coisa sempre precisa chegar a algum lugar, embora quase nunca no orçamento ou nas condições inicialmente imaginadas. Entre as páginas impressas e o leitor existem gráficas, malotes, estradas, custos, extravios e cartas. No fim, editar um jornal independente se parece mais com organizar uma excursão de amigos para uma cidade desconhecida em que ninguém sabe exatamente como vai voltar, mas todos concordam que seria pior não ter ido. E assim seguimos em nosso antiaprendizado de quase 16 anos.
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quarta-feira, 22 de julho de 2026
Pequena teoria sobre jornais, futebol e logística
quarta-feira, 15 de julho de 2026
Este calor nuclear
EDITORIALBom dia! Bem-vindo(a) à Enclave #138, a newsletter com saudades da primeira fase da Copa do Mundo. Hoje tratamos de um disco muito querido para o editor. Antes disso, um recado aos amigos de São Paulo e adjacências:
Assine para receber a Enclave de graça! HIPERTEXTOEste calor nuclearHomens, eu vos amei. Vigiai! — Julius Fucik Lembro exatamente onde eu estava na primeira vez que ouvi Deceit (1981), de This Heat (…). Lembro exatamente como me senti — e, mais estranho, lembro exatamente a descrição de como me senti. Como se tivesse anotado e relido, mas sem tê-lo feito. Talvez porque o álbum tenha imediatamente me chocado à sua maneira, e eu logo tratei de me esforçar para por em palavras aquele primeiro contato. Era 2013 ou 2014, acredito eu. Estava em casa (à época, a dos meus pais), mais precisamente na sala (incomum). Usava um laptop, um vermelho (com adesivo do Defenestrando – bons tempos!). Era noite. Dispunha de fones de ouvido. Motivado pela leitura de Rip It Up and Start Again (2005), de Simon Reynolds, apaguei as luzes (incomum também) e dei play. Foi o mais próximo que senti de medo ao escutar um disco. Aquele horror cósmico, sensação de desamparo existencial. Mas não o de um monstro lovecraftiano, e sim algo mais… humano? A sensação – e a descrição (lamento pela limitação das minhas ferramentas) – era a de cruzar uma ponte no breu, sem saber o que havia em frente e embaixo. Era isso. Um breu absoluto, uma ponte, eu atravessando sozinho. Deceit me formou essa imagem, e eu nunca tinha enxergado algo similar, que dirá com um disco. Também não me lembro de atravessar uma ponte à noite, no breu, muito menos sem saber o que havia em frente; muito menos sem saber o que havia embaixo. Enfim, a arte. E Deceit é arte de altíssimo nível. Engenhosidade pura, a aplicação de um conceito vivo a despeito de qualquer limitação técnica/estrutural. O famoso “tem verdade”. O álbum me marcou mais que outros tantos que me agradam mais; que ouço ou ouvi muito mais. Deceit foi um marco e nunca deixou de sê-lo; uma espécie de assombração para a qual retorno esporadicamente. Não é o resultado mais melódico, nem o mais lírico, nem o mais produzido, nem o mais texturizado¹. A capa ilustra esse terror maravilhosamente. E que terror afinal movia o calor? This Heat era um trio composto de três multi-instrumentistas, mas, principalmente, três almas criativas. Do que me lembro (e posso estar enganado), Gareth Williams (baixo/voz) era a lomocotiva conceitual do grupo. Um texto de The Quietus (sobre Flaming Tunes, o outro projeto de Williams) reforça a ideia:
O primeiro disco do grupo (autointitulado, 1979) é abstrato. Excessivamente abstrato para meu paladar — aquilo que às vezes chamam (não eu!) de “interessante” ou, pior ainda, “necessário”, mas que podemos fechar em “experimental”. Há ótimas ideias, recursos interessantes (rá!); tem dor, inventividade, engenhosidade (principalmente ‘24 Track Loop’, essa pedrada aqui, a mais marcante²). Deceit, o segundo, não é exatamente palatável, mas, digamos, consegue se comunicar um pouco mais com ambientes alheios a jovens efervescentes tentando quebrar a música. Gravado num frigorífico desativado, é um produto do pós-punk e, principalmente, da Guerra Fria³ elevado ao volume 11 (up to eleven). Conta-se – isto é, os próprios integrantes relataram – que eles estavam aterrorizados com a possibilidade de uma guerra nuclear. A questão é que o disco consegue traduzir isso. Portanto, trata-se de um álbum altamente político, mas não tipicamente político. Temáticas políticas podem se centrar muito em letras (às vezes, inclusive, utilizando sua inambiguidade como muleta) e/ou então criar qualquer coisa do ponto de vista técnico (o que tudo bem, afinal *posicionamento*). Não é o caso de This Heat/Deceit, lançado pela Rough Trade Records, que soa como o apocalipse nuclear. A Waste Land de T. S. Eliot⁴; um Cântico para Leibowitz; o deserto de Mad Max; Fallout. O horror (o horror, o horror) de Conrad. Quarenta e cinco anos depois, afinal, há motivos para este coração das trevas permanecer tão aterrorizante quanto atual (…outro adjetivo maldito). Tão atemporal. Deceit ainda tem o som do futuro. Analógico, fragmentado, caótico. O ruído estático numa sinfonia de detritos. E este calor começa com a hipnose de ‘Sleep’, seguido pelo pesadelo brilhante de ‘Paper Hats’. Você pode ouvir Deceit aqui mesmo (ou, se preferir, no Spotify):
Talvez você também sentirá o horror, o medo e a travessia no escuro. Talvez você se lembrará – ou já se lembre – da primeira vez em que escutou Deceit. Talvez nós todos explodamos em breve (não com um suspiro, mas com uma explosão mesmo), e a obra de This Heat terá apenas reforçado como somos realmente muito ocos.
BAÚO Que Diz A Morte
Antero de Quental, 1885.
1
Texturizado? O que isso quer dizer? Não sei; Kraftwerk é melódico e texturizado. E produzido, claro; Jobim também. Este autor se esforçou bastante para não pensar e, consequentemente, conseguir publicar.
2
“A peça central do álbum de estreia do This Heat, ‘24 Track Loop’, é uma faixa pioneira no uso de loops de fita para formar a base de uma música, utilizando essencialmente fita analógica de duas polegadas como um dispositivo de amostragem primitivo. A atmosfera sombria e gélida da faixa a coloca na mesma categoria dos artistas pós-punk e industriais da época, mas há também algo de muito estranho nela. É quase como uma abordagem pós-punk do Miles Davis da era dos anos 70, que também usava loops de fita e métodos de recortar e colar para reconstruir novos grooves. Tudo o que se precisava saber sobre os métodos estranhos e não convencionais usados pelo This Heat podia ser encontrado em ‘24 Track Loop’, uma faixa que é tanto uma curiosidade quanto uma revelação. No entanto, é também a peça musical mais acessível do álbum de estreia autointitulado do grupo, lançado em 1979, que justapunha canções totalmente estruturadas com longos períodos de improvisação.” — Treble, 2016.
3
Não confundir com “Guerra Frita: a balada que uniu o mundo”.
4
Eliot apresenta a ‘Morte pela água’, seção mais curta de seu poema. This Heat nos oferece ‘A new kind of water’ (Um novo tipo de água), já um “bubble bath rain” (chuva de banho de espuma/ácida) e um “acrid stench” (odor acre), cconsequência do progresso material cego.
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