O inferno meditativo do Boards of CanadaEnclave #137, ROLÊVO: participamos da listening session de novo disco do Boards of Canada em Londres. Se nenhuma dessas palavras faz sentido para você, explicamos (mais ou menos).
EDITORIALBom dia! Bem-vindo(a) à Enclave #137, a newsletter mensal que não aparece desde 2025. Em minha defesa, gravamos um curta-metragem no início do ano sobre o qual ainda estamos nos debruçando. — (Não que alguém tenha perguntado, mas) — Seguimos em pós-produção, cada vez mais próximos de concretizar esse sonho antigo. Esperamos lançá-lo em setembro, e antes disso divulgaremos tudo devidamente em nossos canais. Enquanto isso, a Enclave retorna com este relato belíssimo da convidada Raísa Boing, que – até que se prove o contrário – foi a primeira brasileira no mundo a ouvir o novo disco do Boards of Canada. O que em certo nicho se assemelha a tomar o primeiro gole de vinho depois da volta de Jesus. O texto a seguir tem tudo que compõe um grande rolêvo, e você não precisa ser fã de BoC () para apreciá-lo. Voltamos mês que vem (de verdade…)! HIPERTEXTOO inferno meditativo do Boards of Canadapor Raísa Boing Um duo que raramente dá entrevistas, quase nunca se apresentou ao vivo e mal seria reconhecido na fila do mercado mesmo por seu fã mais stalker. O Boards of Canada, projeto escocês formado pelos irmãos Michael Sandison e Marcus Eoin, cultiva há décadas uma espécie de não presença no mundo da música. Há 13 anos sem lançar um álbum de inéditas, a banda ressurgiu da mesma forma que conquistou seu nichado fã-clube: com mistério, ativações analógicas e uma dose de paranoia coletiva. Em abril, fãs começaram a receber em suas caixas físicas de correio (elas ainda existem) uma série de fitas VHS sem qualquer descrição, com imagens borradas, vozes sobrepostas, ruídos de transmissão e um misticismo impregnado em cada frame. Estranho demais para ser acaso, e Boards of Canada demais para ser qualquer outra coisa. No Reddit, único lugar restante de atualizações sobre o duo na internet, começou a se formar um burburinho entre fãs que há pelo menos 10 anos discutiam se os irmãos sequer estavam vivos. Será? SERÁ? Uma decodificação obsessiva em torno das fitas passou a fazer parte do fórum, e aos poucos o mistério se provou o que parecia impossível: eles estavam mesmo de volta. A grande responsável pela misteriosa campanha analógica de divulgação não poderia ser outra: o selo britânico Warp Records, queridinho da “IDM” (Intelligent Dance Music, nomenclatura questionável rejeitada por seus fãs nerds) e casa de nomes como Aphex Twin, Autechre e Squarepusher. Desde o primeiro dia, a gravadora criou a atmosfera para atrair não só a atenção dos fãs sedentos por qualquer fragmento novo de produção envolvendo o duo, mas também a de outros entusiastas da música eletrônica. Mais que um mero anúncio de lançamento, a gravadora – conhecendo bem o chão onde pisa – apostou em uma espécie de jogo de investigação, um chamado indireto, uma reativação muito bem calculada de tudo aquilo que cerca a dupla. E foi assim, em 22 de abril de 2026, que o Boards of Canada anunciou seu quinto e novo álbum, Inferno. Para dar sequência à estratégia adotada desde o início da campanha de divulgação, a gravadora inglesa abraçou a “ritualização” e o frenesi pelo retorno do duo e organizou as chamadas Inferno Sessions, uma série de audições globais para apresentar o novo álbum da dupla uma semana antes de seu lançamento oficial. Para qualquer outra banda, uma ação promocional bem produzida. Para os fãs do Boards of Canada, talvez o mais perto de viver uma experiência coletiva em torno de artistas que praticamente não existem in person. A Warp organizou as sessões em Tóquio, Berlim, Barcelona, Londres, Glasgow, Nova York e Los Angeles. Acontece que eu estaria em Londres no dia do evento, coincidência por si só surreal para mim. Como fã da banda há anos, sabia que dificilmente teria outra oportunidade parecida. Não porque uma listening session seja tecnicamente um show, ou mesmo algo extraordinário para se incluir na lista de grandes eventos da vida — o conceito soa até meio bobo: o que diabos há de interessante em se reunir com outros estranhos para… ouvir um disco? Mas, novamente, o BoC (...) é diferente. E a Warp Records sabia bem disso. O artista não está ali; não há performance ao vivo; ninguém canta ou se estapeia junto. No caso do duo escocês, entretanto, essa tende a ser a maior experiência compartilhada para além de um fórum de Reddit. Os ingressos das Inferno Sessions foram distribuídos mediante cadastro prévio e, claro, esgotaram rapidamente. Havia poucas entradas, muita gente tentando e uma comunidade online inteira lamentando o próprio azar. Eu fiquei sem ingresso — e, brasileira, não aceitei que meu destino simplesmente acabasse assim. Resolvi apelar para o emocional e usar a carta do “shoot your shot”: escrevi diretamente à Warp Records. A princípio tentei soar profissional e usar o Jornal Relevo como veículo para uma sugestão de pauta, mas a verdade é que eu só queria muito fazer parte daquilo. Não aceitaria voltar ao Brasil sem ter participado. Minha VIDA DEPENDIA DAQUILO. EU NUNCA MAIS TERIA ESSA OPORTUNIDADE. E nada disso era mentira (exceto a parte em que alguém usa o RelevO como veículo profissional). Por pena ou medo – e diante de enorme chantagem emocional –, recebi uma resposta quase instantânea da Warp, acompanhada de inesperada gentileza. O time de marketing não só respondeu como abriu espaço e autorizou uma cobertura do evento — detalhe importante, porque as Inferno Sessions não pareciam pensadas apenas como audições promocionais. Havia ali um cuidado de experiência, um desejo de transformar o lançamento em encontro físico, em memória compartilhada, em algo que pudesse existir para além do streaming da semana seguinte. E foi assim, por mail de um e-meio, que o Jornal RelevO esteve presente, na figura desta que escreve, na primeira (!) sessão realizada das Inferno Sessions em Londres. O cenário, bem como toda a campanha de marketing em torno do lançamento do álbum, não poderia ser mais certeiro: o prédio do Stone Nest, um centro cultural sediado em uma antiga capela vitoriana de 1888 cuja imponente cúpula em formato de guarda-chuva ajudava a criar uma atmosfera quase cerimonial para a audição. No dia marcado, cheguei ao local para o evento das 13h — mais três sessões igualmente sold out ocorreriam nas horas seguintes. Havia uma fila do lado de fora do edifício antes mesmo de as portas se abrirem, e esse talvez tenha sido meu primeiro grande choque: perceber que aquilo de fato estava acontecendo e, mais surpreendente, que o BoC era capaz de formar uma fila física em qualquer lugar… ou que seus fãs saíam de casa. No local, uma série de clichês justificáveis: tatuagens ligadas ao duo, camisas do Aphex Twin, gente que viajou de outras regiões da Inglaterra apenas para estar ali. Conversei com um fã que dizia não usar nenhuma rede social há mais de dez anos, mas que ainda mantinha um único espaço de socialização digital: o Reddit, claro. Também havia uma jornalista de 60 anos que tinha todos os discos do duo em vinil, bem como um casal de no máximo 20 anos que descobriu o Boards of Canada no YouTube, no vídeo “Aphex Twin & Boards of Canada study playlist”. Quando as portas do Stone Nest se abriram, a equipe da Warp recepcionou os convidados com envelopes contendo chaveiro, pôster e encarte do novo álbum. Em qualquer outro evento, estes seriam meros brindes, mas ali tratamos quase como relíquias da nossa seita, já que qualquer objeto físico relacionado ao Boards of Canada carrega um peso estranho. Também havia cerveja e vinho disponíveis para quem quisesse uma experiência mais… lúdica. Porém, que fique claro: tudo ao redor sugeria menos uma festa e mais uma espécie de ritual. O Stone Nest decerto foi escolhido a dedo, assim como as demais locações mundo afora: escuro, frio, silencioso, cheio de escadas, corredores e portas fechadas. Em dado momento, me perdi dentro do prédio, abri uma porta por engano e dei de cara com um almoxarifado cheio de cadeiras e instrumentos mal posicionados. Não consegui entender se era só um depósito ou se fazia parte da experiência (a dúvida parecia razoável…). Na sala principal, as cadeiras estavam dispostas ao redor de um grande hexágono vermelho instalado no centro. Ah, o hexágono. Fãs do duo conhecem bem a associação com a Hexagon Sun, nome ligado ao estúdio e à mitologia particular da banda. Ali, o polígono era utilizado como o centro físico da sala, o ponto de convergência, quase um altar. Acima dele, a cúpula recebia projeções que acompanhavam a narrativa visual criada para o álbum. Quando a audição começou, o mundo exterior ficou em segundo plano por 1 hora e 10 minutos.
Fotos: Raísa Boing.
Fumaças vermelhas escapavam do centro conforme éramos apresentados às batidas e aos samples. As projeções mudavam no teto em sincronia com a música. Algumas pessoas abaixavam a cabeça. Outras fechavam os olhos, como se tentassem receber cada fragmento sonoro sem qualquer interferência. Ao meu lado, um rapaz cronometrava o fim de uma faixa e o início da outra, anotando tudo para não perder nenhum detalhe daquele primeiro contato com o disco. Eu também fazia minhas anotações. No começo, ainda tentei analisar alguma coisa friamente. As primeiras faixas remetem aos tempos áureos do duo, mesclando a obra-prima Music Has the Right to Children (1998) e o poderoso Geogaddi (2002) — nunca consigo me decidir qual desses é o MELHOR álbum de fato, mas pode-se começar por aí. Do meio para frente, parece que somos levados a uma viagem hipnótica e a um transe habitual clássico gerado pelas músicas do duo, também muito presentes em Tomorrow’s Harvest (2013), até então último álbum. A partir da sétima faixa decidi me render, e a coisa degringolou completamente. Tudo que eu conseguia pensar era “tesão absoluto”, “talvez BoC seja o maior projeto musical já criado na história do mundo” e “queria que esse momento existisse para sempre”. Lendo meu bloco de notas depois, dei risada. De todo modo, se não for para a música nos tirar a sanidade (ou o que resta dela), para que ela serve, afinal? O fato é: minha análise era verdadeira para mim. Finalmente, naquela sala escura e gelada, havia algo compartilhado entre os indivíduos presentes (e não me refiro ao silêncio). Fãs de uma banda quase invisível reunidos fisicamente em torno de uma obra nova, dentro de uma antiga capela, sob projeções hipnóticas, tentando decifrar uma música que parecia falar tanto do fim do mundo quanto de uma lembrança de infância que talvez nunca tenha existido. Durante 70 minutos, fui abduzida para aquele universo estranho e nostálgico – seria um liminal space?¹ – que só o Boards of Canada é capaz de conceber. A música do duo parece operar em um ponto instável entre o familiar e o ameaçador. Ela soa como uma fita VHS encontrada em uma casa vazia, como um desenho (lembro muito de Coragem, o Cão Covarde) transmitido depois da meia-noite, como uma memória que não sabemos se é nossa. Inferno atravessa samples ritualísticos, ecos de fanatismo religioso, ruídos de guerra, passagens contemplativas e batidas raivosas. Não sei o que fritou a cabeça desses irmãos eremitas – talvez o isolamento no interior da Escócia, as notícias, a Covid, a IA ou a desesperança geral no mundo –, mas eles voltaram com sangue nos olhos, o que é bastante perceptível durante as 18 faixas do álbum. Em Inferno, há uma dimensão mais pesada, mais ritualística, às vezes mais caótica. Ainda assim, por trás do pessimismo sugerido pelo título, encontrei uma forma inesperada de paz. Para alguém que raramente consegue permanecer no presente sem se preocupar demais com o futuro ou hiperanalisar o passado, vivenciar essa audição foi um estado extremamente meditativo. Durante 1 hora e 10 minutos, não havia nada a resolver, responder, prever ou organizar. Havia o som, a sala, o teto, o hexágono vermelho e um grupo de desconhecidos em silêncio, todos tentando atravessar juntos o mesmo abismo. BAÚO Púcaro Búlgaro
Walter Campos de Carvalho, O Púcaro Búlgaro, 1964.
1
Falando em liminal space (ou espaço liminar), Backrooms, novo filme da A24, representa bem essa estética. Não por acaso, o longa-metragem conta com – adivinhem! – Boards of Canada na trilha sonora (mais especificamente nos créditos). A música é ‘The Word Becomes Flesh’, de Inferno: disco e filme foram lançados no exato mesmo dia.
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segunda-feira, 8 de junho de 2026
O inferno meditativo do Boards of Canada
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