Olá, assinante e colaborador do RelevO. Bem-vindo à circular de fim de março do Jornal. Estamos nos ajustes da edição de abril, que deve ir para a gráfica nesta-sexta-feira. Hoje, traremos dois recados para serem lidos ou no calçadão central de uma metrópole, com um músico de rua pedindo doações em seu case aberto, ou em uma galeria de arte com dois andares e escadaria em formato de caracol. 1.Sabemos: pedir dinheiro é uma danação. Há quase 16 anos, a última semana do mês é um filme repetido na sede do RelevO, com o editor-também-responsável-pelo-financeiro espremendo planilhas e prospectando novos assinantes e anunciantes de modo mais insistente que o habitual. Acontece que, entre os dias 23 e 30, temos que pagar a Santíssima Trindade de um projeto cultural impresso: gráfica, Correios e aluguel. De fato, ser contemporâneo de um jornal de papel e literatura é lidar com o fluxo instável da vida, já que nem sempre (ou quase nunca) a receita segue calendário fixo. Custos seguem independentemente de feriados, mas um ponto permanece em aberto: e o dia em que o recurso suficiente não aparecer? O projeto RelevO continua dependendo de três pagamentos com data definida para permanecer em circulação. A operação não pausa. O impresso exige fechamento, produção e distribuição. E a pergunta subsequente não é nova, apenas costuma ser adiada: o que sustenta o projeto quando a entrada falha? Paralelamente, nesta semana, terminei de ver a série Andar na Pedra — A História do Raimundos, que, segundo a Globoplay, narra “A história da banda contada pelos próprios envolvidos, lembrando toda a carreira e escolhas pessoais ao longo de mais de 30 anos. Uma história de reconexão, vitória e aprendizado”. Marcou-me, sobretudo, o depoimento de um dos integrantes da equipe de produção: “duas coisas acabam com uma banda: não ter nenhum dinheiro ou ter muito dinheiro”. Não precisamos nem dizer em qual categoria estamos da dicotomia, nem que aprendemos pouco em pouco mais de década e meia. Há tempos, o RelevO procura um investidor. Melhor, um mecenas, que entenda o modelo peculiar que aplicamos e aceite a lógica identitária do nosso impresso. Confessamos que gostaríamos de passar pelo problema de ter de lidar com as agruras do dinheiro excedente. E o que nos impede de ter dinheiro, além da ausência de sobrenome de herdeiro, de ter um produto fora das lógicas lucrativas atuais, de não conhecer mecenas algum ou do nosso espírito um tanto turrão? Ainda sobre confessionários, sabemos que temos um potencial repelente fortíssimo: não vendemos espaços editoriais em troca de favores ou recompensas — uma prática recorrente no meio —, não aceitamos ingerência no conteúdo que publicamos, não captamos o ouro de tolo das bets e jogamos o jogo das redes sociais ao nosso modo, o que significa, por exemplo, não impulsionar conteúdo para fomentar bilionários insuportáveis nem produzir conteúdos caça-cliques que aumentam engajamento. Também não sensualizamos. Digamos que não nos ajudamos. Por outro lado, garantimos ao leitor uma experiência livre de amarras e que representa o nosso espírito dentro das circunstâncias em que estamos inseridos: fazemos um jornal do jeito que queremos. Dia desses, estava refletindo sobre o Grimpa (2005-2026), jornal fundado em Ponta Grossa (PR) pelos jornalistas e professores universitários Ben-Hur Demeneck — ombudsman do RelevO entre 2016 e 2017 — e Rafael Schoenherr, que já foi o nosso assinante (volta, Rafael!). Nas palavras de Ben-Hur, no artigo “Jornal Grimpa: nem tudo são espinhos na imprensa paranaense: descrição e memória de um periódico do interior”, de 2008, o nome homenageia o ramo da Araucária, árvore-símbolo do Paraná, “mais conhecido quando está espalhado pelos chãos da mata, quando assume a condição de ramo caído do pinheiro. É cheio de pontas, espinhento. Seca, a grimpa se torna excelente para fazer fogueiras improvisadas”. Com esse espírito algo paranista, o veículo era um tablóide de 16 páginas, com 12 páginas em preto-e-branco e quatro coloridas. A tiragem inicial era de 2.000 exemplares, aumentando para 2.500 exemplares a partir da terceira edição, sempre com distribuição gratuita. Pensei, de passagem, em um aspecto até pouco reforçado na cultura dos impressos e que vem tomando um tanto das discussões internas do RelevO: os rastros de portfólio. Todo produto cultural que aglutina artistas, escritores, entusiastas e a comunidade de modo geral ao seu redor impacta a trajetória de quem foi publicado ou teve um espaço no projeto. O autor publicado chega ao próximo espaço de circulação de ideias com as marcas de seu passado de publicação. Mais: o Grimpa tinha ombudsman. Atualmente, no Brasil, entre todos os jornais ou revistas impressas, apenas o RelevO, O Povo, de Fortaleza, e a Folha de S. Paulo (pioneira na instituição do cargo, em 1989) têm o cargo. Na última edição, de setembro de 2006, o jornalista e pesquisador Marcelo Bronoski cobrava os idealizadores pela dificuldade de realizar o seu trabalho crítico diante de um jornal sem periodicidade definida: “Já faz mais de três meses que a última edição do Grimpa circulou. Essa distância entre uma e outra edição prejudica a crítica, afinal, ela aposta na lembrança dos leitores da edição anterior”. À frente, o ombudsman da publicação reconhecia a dificuldade de erigir projetos coletivos de cultura e fazia um apelo para que a comunidade de interesse auxiliasse o financiamento do projeto, “para que o jornal não entre naquela lista de mais um que não deu certo”. Ben-Hur continua o tópico: “Uma ideia que tínhamos para a continuidade dos trabalhos era a escrita de um manual de redação. Para consolidar o modelo proposto pelo Grimpa. Fracassamos nesse ponto. Uma outra expectativa sem alcance foi a de promover a contínua remuneração dos colaboradores. Nos dois primeiros números houve o pagamento de um pró-labore. Com a dificuldade em manter e renovar os anunciantes, aceitou-se o voluntariado. Até porque as edições tinham uma periodicidade alongada e, em reportagens de maior fôlego, se procurava por pautas que o repórter as pudesse resolver dentro das suas habilidades e estrutura”. A impressão do Grimpa era feita em Apucarana, norte do Paraná, pela empresa Grafinorte. O material impresso era despachado de madrugada por uma viação de ônibus, que entregava o periódico na rodoviária de Ponta Grossa, sem custo extra. Como é comum em iniciativas culturais desde o final do século 19, inclusive no RelevO, os colaboradores da empreitada se envolviam no processo de disseminação de conteúdo. “Os próprios integrantes do jornal e simpatizantes trabalharam na distribuição. O foco eram os espaços culturais e os pontos de encontro: bibliotecas, livrarias, sebos, cafés, padarias, entidades de classe, órgãos governamentais”, acrescenta Ben-Hur. O Grimpa terminou silenciosamente, destituído de um cerimonial, sem um enterro à altura de seu rápido e marcante legado. Percebe-se que, em um impresso cultural, até morrer é difícil, como se morrer de esquecimento fosse procedimento, uma procissão que passa em frente de nossas casas e vai ecoando cada vez menos, cada vez menos. São editores que acabam defendendo para si outras prioridades, tornando-se professores e/ou acadêmicos, pequenos empreendedores, funcionários públicos, especialistas em edital, CLTs. É a vida que segue e, de repente, passaram-se 20 anos. A falta de capital de giro e a dificuldade para angariar recursos fazem com que aqueles que mais demandam energia a um projeto se concentrem em defender os custos da vida — fator sempre urgente e pouco negociável. “O Grimpa bem poderia seguir, porém, demandava um empenho de muito tempo, dinheiro e energia — se o dinheiro fosse farto, as outras duas variáveis seriam relativizadas. Do jeito que ia, era preciso alguém se dedicar de modo quase que exclusivo a ele. Todos precisavam batalhar a subsistência”, completa Ben-Hur. Ao tentar entender um pouco um periódico que completa 20 anos de extinção, de certa forma, tentamos entender como as coisas são atualmente para nós, do RelevO. Muitas vezes, esquecemos o papel que os veículos têm como propulsores de carreiras. Por isso, sempre ficamos felizes quando surgem novos periódicos e tristes quando acabam, porque chega a ser até ingênuo olhar tal dinâmica por um viés da concorrência. Um impresso reúne um grupo de pessoas que movimentam ideias. Se essas ideias param de circular, naturalmente, as pessoas continuam com suas ideias, mas com uma tendência à dispersão ou em um lugar que pode-vir-a-ser. Entendemos que manter um impresso é um exercício contínuo. Não apenas de recursos, mas de tempo, de prioridades e de insistência. Existe uma rotina que não aparece para quem lê: fechar edição, negociar prazos e dívidas, lidar com fornecedores, distribuir exemplares, acompanhar retornos. Tudo isso acontece enquanto a vida segue em paralelo. Manter um impresso é também sustentar um espaço de encontro. Ainda que silencioso, ele conecta pessoas que talvez nunca se encontrem. Um texto publicado atravessa cidades, chega em mãos diferentes, provoca leituras distintas. Esse movimento, mesmo quando discreto, constrói alguma permanência. Por isso, quando um periódico deixa de existir, não se perde apenas um produto. Perde-se um ponto de contato, um lugar onde ideias encontravam forma e circulação. E quando ele permanece, mesmo com limitações, o que se sustenta não é só o papel impresso, e sim a possível continuidade de um pensamento coletivo apoiado por quem se incomoda com a tendência de as coisas simplesmente acabarem. 2.A atual ombudsman do RelevO, Priscila Branco, trouxe na edição de março o seguinte depoimento-questionamento: “É emocionante ler os relatos sobre pontos de distribuição de todo o país. Por exemplo, na edição de janeiro, tivemos a carta do Nostalgia Sebo e Livraria, de Rondônia, ou leitores encontrando o jornal em bibliotecas públicas e livrarias de forma gratuita. Também é bonito demais quando descobrimos novos autores ao acompanhar a curadoria de textos de cada edição. Falando nisso, fica como sugestão pro editor: que tal incluir uma minibio de cada autor publicado, com algumas informações básicas? Estado ou cidade de origem, ano de nascimento, rede social. Vamos facilitar a vida dos pesquisadores futuros, editorial? Essa sugestão não trata apenas de um detalhe, mas de rastros fundamentais para a construção de arquivo (como comentei na coluna da edição passada).” De fato, por uma escolha editorial antiga, o RelevO não publica bios, inclusive desestimula os autores a enviá-las. No nosso sistema de blind review, o Conselho Editorial lê os materiais enviados sem o conhecimento do nome à frente do texto. Nunca tivemos uma preocupação com representatividade geográfica por entender que o texto precisa se sustentar, a partir dos nossos critérios, independentemente da origem do autor. Sabemos que tal raciocínio tem seus pontos cegos, já que, por exemplo, consideramos gênero, tentando, assim equiparar a publicação de homens e mulheres. Na edição de abril, Priscila Branco voltará ao tema, que segue em debate em nossa redação. Deixamos um trecho da coluna inédita: “Incluir o estado de onde a pessoa é e/ou vive, sua idade e seu contato (vejam que não estou pedindo para narrarmos grandes trajetórias dos escritores, mas apenas o básico, para termos pontos de rastreio ou dados e estatísticas) pode contribuir para gerar arquivo para futuras pesquisas e para uma reflexão sobre como fazer uma curadoria mais diversa e plural.” Assim, entre apelos de auxílio em nossa subsistência e questões editoriais que podem modificar comportamentos repetidos e talvez cansados de nosso modus operandi, seguimos no tabuleiro: fechar mais uma edição, sustentar um gesto. |
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quarta-feira, 25 de março de 2026
Rastros de portfólio no calçadão central
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