quarta-feira, 12 de novembro de 2025

Finalmente, a extinção do RH?

domingo, 9 de novembro de 2025

Crônica do dia: Charlotte, Dos teus astrais anversos e obversos! 

Crônica do dia: Charlotte, Dos teus astrais anversos e obversos! 

 

''E, assim deixo a minha marca, a minha escrita, os meus gritos contidos,

O meu silêncio e as minhas lágrimas de poeta.

Reinvento-me, sou filha do vento, caminho por horizontes,

Nos quais deixo sempre um pouco de mim.

Filha do vento, errante, estrangeira, caminho por horizontes, sem fim...!''

Fabiane Braga Lima

 

 

Primeira parte: Anversos!

 

O suave vento outonal, açoitou a árvore centenária, as aves Mores regozijavam uma lamúria tétrica ancestral. Os balançarem dos corpos sem vida, era um bailado lindamente funesto, que os habitués daquela localidade, estavam mais que acostumados com aquele espetáculo teatral.

— A senhora, senhora! Chame o meu pai? Por favor! — A lamúria parecia que vinha de todas as partes e de lugar algum.

Olhei para cima, para o topo da frondosa árvore inexistente e vi o impensável, logo pensei em Charlotte Bernard Kerber, quatro corpos sem vida, balançando aos sabores do vento outonal no agonizante arrebol, eram negras e agourentas aves Mores, elas empoleiradas e sobrevoando a árvores. Mas não eram quatro corpos sem vida, eram três.

— Ricardo? — Eu estava atônita, como eu não queria avistar o conhecido e reconhecido adicto, que o pai dele estava morto, tinha morrido em um desastre aéreo. Os outros três eram pessoas desconhecidas, dois homens, um adulto e outro um jovem adulto e uma mulher bem jovens, pelas roupas deduzi que eram maquis.

Segui o meu caminho e não fui muito longe, atravessei o decadente deck de madeira, inundado de areia fina da praia, e olhei para a esquerda, uma lufada de vento marítimo levantou uma mística borrasca de areia. O dia prometia! E logo vi que a praia agreste estava deserta e eu achei maravilhoso.

E não muito longe, vi a suntuosa barraca de acampar, branca polar, com faixas azuis nas bordas e dobraduras, era o efêmero de Charlotte Bernard Kerber, como ela mesma nomeou. E lá caminhei, antes de pôr os meus pés na areia, tirei as minhas botas de canos longos de vinil negras, confesso que as minhas roupas casuais, não eram apropriadas, as minhas vestes de ir até o cemitério mais próximo para o ambiente. Muito menos as minhas pesadas maquiagens negras e vermelhas.

E caminhei pelas normas areias da praia naquela final de uma tarde de outono e eu estava esperando pelo pior de todas as sensações.

 

Segunda parte: Obversos!

 

            — Podes entrar, minha querida! — Disse Charlotte Bernard Kerber! Ela de costas para da entrada da barraca, logo pensei que a pequena exposição de quadros, ali expostos, parecia que estava disposto para a minha chegada.

      A pequena exposição neoimpressionista, intitulado O Triângulo vermelho, contava uma história, que começava no velho mundo e desembocava no novo mundo, o embate da última grande guerra, a travessia para o novo mundo, a chegada no novo mundo e aculturação do que aqui chegaram. Era focado em um pequeno grupo, de mulheres, todo expressivo e cheio de sentimentos vagos e nevoentos.

         — Gostei muito da vossa produção! — Eu disse baixinho

        — Muito bom a vossa visita! — Disse Charlotte Bernard Kerber, que trabalhava em uma pintura, estava pintando o rosto da bailarina, o quadro que estava trabalhando na última visita que eu tinha feito. A pintora neoimpressionista, se virou para mim e deu um passo para a direita, me aproximei e vi o meu rosto na pintura. Foi arrastada pela imagem, eu estava em uma rua do subúrbio de Paris, era uma modelo de uma fotógrafa, uma chuva fina e fria começou a cair e a equipe da fotógrafa se desesperou e a fotógrafa disse em um francês, com sotaque belga, para todos ficarem quietos e bateu a fotografia. Enquanto uma capa de chuva foi lançada em cima da máquina fotográfica. Depois de fortes dores de cabeça eu voltei para o tempo presente.

       — Não tem a ver, com o que você pede e sim, o que você merece, o que podemos dar e o que queremos dar! Às vezes, é um pequeno vislumbre o que se quer, ou onde quer estar! Outras é um paradoxo temporal, sem fim, um pesadelo ou um sonho! — Disse me a pintora neoimpressista e continuou — Gostei do vosso texto, na revista Astro-domo, um tanto aquém do que realmente acontece! — E me jogou de forma ríspida um exemplar da revista que peguei no ar.

      — Interessante! Então é um desejo meu reprimido? — Disse eu para me arrepender depois, eu estava navegando em um universo vasto e desconhecido.

      — Aí fica para a vossa imaginação! Vá embora minha cara e não volte mais aqui! Mas vamos brindar as nossas vidas, imaginária, real, presumida, reprimida ou desejada.

      Charlotte Bernard Kerber ergueu duas taças de cristal e uma garrafa de vinho antiga, muito antiga. Degustamos o negro vinho e como era doce e etérea aquele líquido divinal, mergulhei em doces sensações astrais. Sai daquela tenda como se eu saísse de um sonho simbolista, na orla da praia estava apinhada de gente jovem e famílias jovens vestidas de roupas praias de tempos imemoriais e na água homens jovens surfavam com pranchas antigas em bravias ondas perigosas.

        Eu tinha em mente que eu bem que gostaria de rever este cenário, mesmo sabendo que nunca mais teria a chance de rever este universo mágico do triângulo vermelho. Pois eu já tinha experimentado o que não queria, mas merecia e eu não ousava querer mais.

 

Fragmento do livro: Do diário de uma louca, texto de Clarisse Cristal, poetisa, contista, novelista e bibliotecária em Balneário Camboriú, Santa Catarina.

Arte digital de Clarisse Costa, é designer gráfico, poetisa novelista, contista e cronista em Biguaçu, Santa Catarina.  

 

quinta-feira, 6 de novembro de 2025

Dos teus anversos e observos

Dos teus anversos e obversos

                                                                                                                                    Para a poetisa Fabiane Braga Lima

di

Estou pausolitudes astrais

A esperar os magnificentes

Vívidos e velozes

Versos vorazes teus

***

Fico eu estático

No nevoento limbo existencialista

tesperá-los na alvorada rubra

Ao final do dia

Para acalentar os múlti-plos vazios

Das místicas e cósmicas

Ausências infindas

De todas as celestes dores inócuas

Do deserto do real

***

Estou eu ávido expectando

Com os meus débeis e cansados

Olhos sedentos

Os teus velozes e vorazes

Versos teus

***

Fico eu inquieto

Cobiçoso e sedento

Na completa escuridão

Aguardando os hialinos

Anversos ou obversos teus

 

Fragmento do livro: Astro-domo. Texto de Samuel Da Costa, é contista, cronista, poeta e novelista em Itajaí, Santa Catarina.

Arte digital de Clarisse Costa, que é designer gráfico, novelista, poetisa, contista e cronista em Biguaçu, Santa Catarina.

 

quarta-feira, 5 de novembro de 2025

Crônica do dia: Charlotte, e o triângulo vermelho!!! Ilusão do controle

Crônica do dia: Charlotte, e o triângulo vermelho!!! Ilusão do controle

 

''Em noites de tempestades!

E ventos álgidos...

Eu vagueio solitária... E languidamente!

Pelo mítico vergel da solidão...

Choro e sofro!

Todas as dores do mundo!

Pelo amor que se foi,

Por tudo aquilo que não veio...

E por tudo aquilo que nunca virá. ''

Samuel da Costa

 

            O badalar do sino já não irritava mais, o grupo de senhoras de idade avançada começaram a achar divertido o bar temático. As caveiras, mobiliários rústicos, as bandeiras Jolly Roger em toda a parte, assim como timões, antigas pistolas e mosquetões e as moças e rapazes vestidas a caráter. O casal de violonistas, postados na entrada do bar, tocava eternamente músicas de temática marinha, estavam caracterizados de piratas, estavam estáticos um em oposição ao outro. O cheiro de bebida barata e o vai e vem de uma massa de pessoas de idade avançada deixa o estranho e ao mesmo tempo aconchegante e quando um pianista caminhou rumo ao piano Blüthner. O homem negro, vestido como um músico de alguma tasca barata lusitana, o músico começou a tocar uma opereta a muito esquecida.

            — Vocês não acham engraçado? — Perguntou Adelaide Schmidt em tom zombeteiro, ela que estava levemente embriagada depois uns goles de rum.

            — O que é engraçado, minha querida? — Juliette Müller devolveu a pergunta, um tanto intrigada.

            — Delinha está falando da escuna! — Genevieve Weber responde com sorriso nos lábios.

            — Um tanto forçado minhas queridas! Margarida Correia e Margarida Cohen não são as mesmas coisas! — Disse Jeanne Schneider, querendo encerrar a conversa desagradável, que tirou um cigarro da bolsa, levar a boca acendê-lo com um isqueiro e dar uma baforada no ar.

            — A grande Margarida Cohen, é mesmo um tema que devemos evitar amadas amigas! — Falou Marie Meyer de forma dramática.

            — As Valquírias, Wagner! Toque uma boa música! — Gritou Elisabeth Muller, para o pianista se levantando e encarando o pianista.

O musicista, olhou para mesa onde as senhoras estavam, deu um sorriso e passou a tocar a Cavalgada das Valquírias de forma virtuosa e dramática.

— Outra ironia do destino amigas! — Preferiu Gertrudes Martin, depois deu uma gargalhada e as demais a seguiram. A explosão da gargalhada não passou despercebido dos demais frequentadores do bar.

— Maldita maquis! — Praguejou Katharina Dúbios e cuspiu no chão.

— Quando os nossos consortes voltam do passeio pirata? — Perguntou Charlotte Bernard Kerber.

Os maridos das senhoras à mesa tinham embarcado na escuna Margarida Correia, a um tempo atemporal, pois as esposas não tinham a mesma noção de tempo. Ao ocuparem mesas separadas depois de um longo dia cansativo de uma conferência anual do movimento do velho mundo, a qual estes pertenciam, que a cada ano era acrescido. Novos elementos, congêneres e aliados começaram a aparecer no evento outrora restrito. Neste ano, os elementos mais velhos foram agraciados com um passeio náutico em uma escuna pirata, uma encenação teatral, que está no bar Corsário Jean Lafitte, anexo ao ancorado na embocadura de um rio com o mar. A escuna aportou, os corsários desembarcaram percorreram o deck de madeira, contavam a música Wellerman, o coro das vozes masculinas e femininas chegaram aos ouvidos dos frequentadores do bar. Estes gritaram em coro: — Marujo! Uma garrafa de rum! — A trupe adentrou no Corsário Jean Lafitte, homens e mulheres devidamente caracterizados com as suas roupas de corsários do mediterrâneo. Se dirigiram até a mesa onde homens idosos bem vestidos de trajas de veraneio com as suas canecas de chopp.  

Tempo o capitão a frente, desembainhou uma grande espada estilizada, saltava os olhos as gravuras na peça, eram gravuras que remetiam aos abismos do fundo mundo do mar, com peixes, cetáceos e crustáceos desconhecidos. O brilho azul da espada hipnotizou a plateia, o homem alto, barbudo, uma barriga proeminente, cheiros de álcool barato, charuto ordinário, tapa olho, contas de pérolas no pescoço, pistolas espanholas na cintura. O capitão pirata apontou a espada para o centro da mesa.

— Marujos! Bucaneiros! Ahoy! Carreguem estas peças de pilhagem para o navio! Levante a âncora e ice a mezena! Hasteiem a Jolly Roger! O andar na prancha, lhe esperam! — Bradou o capitão pirata de forma teatral. Os senhores sorriram, se levantarem, ergueram as mãos e a tripulação os acorrentou e por fim caminharam para a escuna Margarida Correia.

— Se bem me lembro, Margarida Cohen alvejou a bala, muitos dos nossos soldados nas Florestas do Vosges, Hardt e Haguenau — Disse Gertrudes Martin e prosseguiu — Eu mesma tratei dos feridos e preparei os corpos para o funeral.

— Eu servia no sistema de ferrovias nacionais, li os relatórios e vi os estragos que o grupo Margarida Cohen fez nas linhas férias! — Relatou Elisabeth Muller com a voz trêmula.

 — Vocês tiveram sorte, eu conheci os dois majores, que Margarida Cohen seduziu em uma tasca, os levou para fora e os matou a golpes de adaga! — Disse Katharina Dúbios, com o pesar na voz.

     — E a conheci pessoalmente, minha querida! — Disse Genevieve Weber, as outras olharam para ela! — Trabalhávamos no mesmo hospital, o pai e a mãe dela trabalharam no mesmo hospital até serem presos e concentrados no leste. Ela escapou!   

             — Eu estava lá quando a pegamos, a corte marcial a condenou à morte, mas o alto comando deu a ordem para a levarem para a capital do império! Dizem que a trocaram com os nossos que estavam no leste! — Falou Adelaide Schmidt

            — Se bem me lembro! Havia neblinas, que ocorriam quando Margarida Cohen atacava! Névoa como ela era conhecida — Falou Charlotte Bernard Kerber.

            A trupe teatral reapareceu para o segundo ato da peça, os atores contavam O Marinheiro Bêbado, The Drunken Sailor. As senhoras, foram informadas por um panfleto, que seriam levadas a uma praia privativa e de difícil acesso, seriam levadas a junto dos seus maridos. Os atores estavam com os olhos vidrados, os sorrisos revelavam os dentes decadentes, os figurinos estavam degradados e a cena se repetiu se, de quando os maridos foram levados. Os respingos de sangue fresco, o cheiro de pólvora queimada e as senhoras se levantaram, Charlotte Bernard Kerber foi a única que ficou sentada. Ao ganharem a luz do dia, ao caminharem pelo deck de madeira, uma neblina espessa apareceu repentinamente, acorrentadas as senhoras embarcaram na escuna Margarida Correia. Atrás deles os piratas do Triangula vermelhos deram vivas, embarcaram na escuna, foram todos tragados pela neblina e um sino tocou em algum lugar desconhecido.

 

Fragmento do livro: Do diário de uma louca, texto de Clarisse Cristal, poetisa, contista, novelista e bibliotecária em Balneário Camboriú, Santa Catarina.

Arte digital de Clarisse Costa, é designer gráfico, poetisa novelista, contista e cronista em Biguaçu, Santa Catarina.